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domingo, 18 de agosto de 2013

Enfrentando os nossos gigantes



Enfrentando os nossos gigantes


Por: Fernando Marin


   Vivemos em uma sociedade tecnológica, bem diferente de tempos atrás, com novos desafios e necessidades, onde o homem sente-se cada vez mais dependente da tecnologia e de si mesmo. Não é raro encontrarmos pessoas que sentem-se capazes de resolver e enfrentar uma série de desafios contando apenas com elas próprias , pessoas que não colocam suas vidas na dependência do Senhor para que possam atingir os seus objetivos e metas ou para superarem as dificuldades que a vida nos apresenta. Parece que se esquecem dos ensinamentos de Jesus no chamado Sermão do Monte (Mateus 5), onde no versículo 3 diz o Mestre que "Felizes são os que sabem que são espiritualmente pobres pois o Reino dos Céus é delas." (NTLH).

 De acordo com Jesus, é necessário que sejamos humildes ao ponto de reconhecermos, com a nossa pobreza espiritual, que dependemos de Deus para todas as coisas e se esquecermos disso não herdaremos o Reino dos Céus, ou seja, a falta dessa humildade, a falta de entrega do controle de nossas vidas a Jesus, do reconhecimento Dele como nosso senhor e salvador não nos dá o direito à vida eterna e à salvação de nossas almas.

   Na Bíblia há inúmeros exemplos de pessoas que se colocaram humildes perante Deus, entregaram as suas vidas ao serviço no Reino e que foram abençoadas ou abençoaram a muitos outros e que, com certeza, receberam seu galardão de glória.

  Não falo de perfeição, nenhum de nós é perfeito, ao contrário, todos somos pecadores, porém Deus busca aos que reconhecem a sua finitude, a sua pequeneza perante Ele e essa qualidade podemos observar em Davi, por exemplo, um homem que mesmo sendo pecador e imperfeito, foi chamado de " homem segundo o coração de Deus" (Atos 13.22).

   Conta a Bíblia em 1 Samuel 17 que os filisteus se reuniram para lutar contra o povo de Israel, cada exército acampado de um lado do vale do Carvalho, e que um homem chamado Golias , filisteu, saiu para desafiar os israelitas. Esse homem tinha quase 3 metros de altura e pesava cerca de 300 kg, usava um capacete e uma armadura ambos de bronze, e só a armadura pesava 60 kg. Usava caneleiras de bronze, que protegiam as suas pernas e carregava um dardo, também de bronze, além de uma lança muito grossa e pesada, cuja ponta de ferro pesava cerca de 7 kg. Ele desafiou o exército israelita e quando o rei Saul e os soldados ouviram isso ficaram apavorados.

  Tiveram medo, não sabiam como enfrentar aquele gigante, como derrotá-lo. Muitas vezes enxergamos nossos problemas como se fossem gigantes, temos medo, fugimos deles. Porém, Davi nos ensina uma grande lição.

  Durante 40 dias , Golias desafiou os israelitas para a batalha, mas não houve nenhum homem com a coragem necessária para enfrentá-lo. Aí, surge Davi, um pastor de ovelhas, filho caçula de Jessé e que foi ao acampamento levar comida a seus irmãos mais velhos, alistados no exército de israel. Quando vê aquela situação se dispõe para lutar contra Golias, porém o rei Saul não o autorizou, por ser ele muito jovem - tinha cerca de 20 anos - e franzino. Quantas vezes também ouvimos das pessoas que não somos capazes de vencermos nossos gigantes, nossos problemas, nossas lutas? Quantas vezes ouvimos que não há solução, que não temos forças suficientes para resolver alguma situação difícil?

   Mas, Davi insistiu com o rei, alegando que ele era um pastor das ovelhas de seu pai, e que muitas vezes havia lutado contra ursos e leões protegendo as ovelhas, e que Deus sempre o tinha salvado desses animais e que, com certeza, Deus também o salvaria daquele gigante. Assim, Saul permitiu que Davi enfrentasse Golias, e entregou a ele sua própria espada, escudo, couraça e um capacete para proteção. Porém Davi sequer conseguiu andar com todas aquelas armas, pois não estava acostumado a elas. Muitas vezes também tentamos enfrentar nossas lutas com as armas inadequadas, com a arrogância, a vaidade, a autoconfiança, nos esquecemos de colocar nossas metas nas mãos de Deus.

   Pegou Davi, então, um bastão e algumas pedras lisas além da sua funda ( arma de mão, do tipo estilingue) e partiu para enfrentar o gigante. Correu em direção a ele,e , em nome de Deus, escolheu uma pedra, colocou na sua funda , atirou e derrubou Golias, que foi morto por Davi com a sua própria espada, o que fez os demais filisteus fugirem correndo.

   Se continuarmos a contar a história de Davi, veremos que ele foi um homem comum e que cometeu inúmeros erros em sua vida. Porém, ele procurava acertar e possuía uma enorme confiança em Deus.

   Creio que com Davi aprendemos que nossa força não está nas armas terrenas, mas sim no poder de Deus que se manifesta quando colocamos nossa fé e confiança nas Suas mãos, quando reconhecemos que é Ele quem nos guia e guarda, quando colocamos o controle da nossa vida em Suas mãos.

   Fica aí o desafio: entregue a sua vida a Jesus, confie nele, e o resto Ele fará.


Fernando Marin



terça-feira, 6 de agosto de 2013

Uma questão de humildade





Uma Questão de Humildade

Por: Fernando Marin


   Uma das palavras mais ouvidas quando da visita do papa Francisco ao Brasil foi "humildade". Muitos observaram nele uma figura humilde, que carrega suas próprias malas, faz questão de ele mesmo pagar a sua conta de hotel, viaja em veículos simples, creio que esse foi o traço marcante que visualizamos no papa Francisco, e que em muito colaborou para a sua popularidade ímpar.

    Creio que o maior de todos os ensinamentos que Jesus nos deixou depois da sua breve passagem por este mundo, foi a humildade. O próprio Deus se fez carne, habitou entre nós e entregou a sua vida, numa morte estúpida e dolorosa, por amor a pecadores e imperfeitos.

    Mas, afinal, o que é "humildade"? Se buscarmos em um dicionário, verificaremos que essa palavra pode ser definida como “capacidade de reconhecer os seus próprios erros, defeitos ou limitações”; sinônimo de ‘modéstia".  O bispo anglicano, teólogo e escritor Jeremy Taylor, diz que:

     “Humildade não consiste em erigir cercas contra você mesmo, usar roupas de mendigo ou portar-se de forma suave e submissa. Consiste, porém em ter de si próprio uma avaliação sincera de que você realmente é mau e medíocre”.

    Quando buscamos na Bíblia, encontramos uma série de textos que engrandecem a humildade como característica principal do cristão, textos que afirmam a necessidade de sermos dependentes de Deus e não de nossos dons e talentos.

   Porém, muitos cristãos insistem em manter um estilo de vida independente e autossuficiente, e um exemplo clássico disso encontramos no texto de Mateus 17. 14 – 21, quando os próprios discípulos não conseguiram expulsar um demônio que atormentava a vida de um jovem, e foram advertidos por Jesus de que havia a necessidade de jejum e oração, ou seja, de se achegar mais a Deus, para que o poder do Espírito Santo possa operar através de seu povo.

    Olhando à nossa volta, hoje, percebemos que muitos cristãos estão perdendo o foco como igreja, deslocando esse foco para outras ações que não as preconizadas por Cristo, preocupando-se com a construção de templos suntuosos, festas e eventos grandiosos, programas de televisão caríssimos, shows ditos "gospels" de grande porte e por aí vai. Poucos são os que, como Jesus ensinou, priorizam o amor a Deus e ao seu próximo, como o Mestre estabeleceu como os maiores de todos os mandamentos.

    No chamado Sermão do Monte (Mateus capítulos 5 a 7), Cristo colocou a "humildade de espírito” como a primeira das bem aventuranças, salientando a necessidade de nos colocarmos na dependência total de Deus, para que possamos ter uma vida abençoada.  Ele falava frequentemente de humildade, e mostrava em sua vida de serviço o que significa elevar os outros acima de nós mesmos. O maior exemplo da importância que  Jesus dava à humildade, está em João 13, quando, na chamada Última Ceia, Ele lava os pés dos seus discípulos, atividade que, na época, era desempenhada pelo mais simples dos servos.

     Podemos tirar algumas conclusões claras e importantes do ensinamento da Bíblia, mostrando porque a falta de humildade nos afasta de Deus:

  •     Sem humildade, não serviremos aos outros como deveríamos, porque aqueles que são arrogantes e egoístas não querem servir, mas serem servidos.


  •     Sem humildade, não seremos discípulos. Os orgulhosos querem ser chefes e cobiçam a posição e a influência de outros.


  •     Sem humildade não buscaremos realmente a verdade. O homem orgulhoso pensa que já conhece todas as respostas, e não quer depender de quem quer que seja, nem mesmo do próprio Deus.


  •    Sem humildade, não reconhecemos nossos próprios defeitos. Somos até capazes de enganar nossos próprios corações para não vermos nosso próprio pecado. Saul fez isto quando defendeu sua desobediência na batalha contra os amalequitas. Ele argumentou que tinha obedecido ao Senhor e quem tinha errado não teria sido ele, mas o seu povo (1 Samuel 15:20-21).


  •      Sem humildade, temos dificuldade em aceitar a correção. Provérbios 15:31-33 mostra a consequência de tal orgulho:


“Aquele que aceita a repreensão justa andará na companhia dos sábios. Quem rejeita conselhos prejudica a si mesmo, mas quem aceita a correção fica mais sábio. Quem teme o SENHOR está aprendendo a ser sábio; quem é humilde é respeitado.”

  •    Sem humildade, também não perdoamos o erro dos outros. O orgulho é egoísta, e nos torna facilmente ofendidos e lentos a perdoar. Jesus ensinou claramente que a pessoa que não perdoa não será perdoada por Deus (Mateus 6:,14-15).


“Porque, se vocês perdoarem as pessoas que ofenderem vocês, o Pai de vocês, que está no céu, também perdoará vocês. Mas, se não perdoarem essas pessoas, o Pai de vocês também não perdoará as ofensas de vocês ”

   A segunda frase é muito clara. Se não aprendermos a sermos humildes, não entraremos na presença de Deus.

     São muitas as lições que aprendemos da Bíblia no tocante à humildade. Se nos dizemos cristãos temos de agir como tais. Sabemos da necessidade humana de sobressair, em se mostrar sábio, abençoado, ungido, ou seja, de querermos de alguma maneira sermos bem vistos pelos demais. Porém, as palavras de Jesus Cristo nos colocam em nosso devido lugar:

Mateus 23.12 “Quem se engrandece será humilhado, mas quem se humilha será engrandecido.”

   Ainda em relação a esse tema, palavras de João Calvino:

...”Daí, não é difícil deduzir por que meio Adão atraiu sobre si a ira de Deus. De fato, Agostinho fala acertadamente quando declara que o orgulho foi o princípio de todos os males. Pois, se a ambição não tivesse elevado o homem acima do que era próprio e certo, ele poderia ter permanecido em seu estado original” (João Calvino).

  Ser cristão é viver a cada dia em busca da santificação, "sem a qual ninguém verá a Deus "(Hebreus 12.14).

Fernando Marin

domingo, 21 de julho de 2013

Solidariedade






Solidariedade

Por: Fernando Marin


Como sempre digo, gosto de assistir aos noticiários da tv em busca de notícias que nos tragam esperança no futuro, e, recentemente, uma reportagem me chamou a atenção.

A matéria mostrava um grupo de médicos, dentistas e profissionais de saúde que se uniram em uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é o de levar atendimento médico e cirúrgico especializado a regiões isoladas que não tem acesso a ele , principalmente às populações indígenas.

Essa Organização sobrevive de donativos , de convênios com empresas e de parcerias, que viabilizam o trabalho e foi fundada em 2003, depois que um grupo de médicos teve a oportunidade de visitar uma aldeia yanomami e constatou a necessidade de um serviço que desse atendimento de saúde àquela tribo.

De lá para cá, foram realizadas 3569 cirurgias, em um centro cirúrgico móvel e bem equipado, além de dezenas de milhares de atendimentos médicos e dentários em diversas expedições na amazônia e no Haiti.

É cada vez maior o grupo de pessoas que se dedicam a ajudar o próximo, sejam artistas famosos, organizações não governamentais e outras que praticam a solidariedade como forma de fazer algo por quem necessita, em concordância com os princípios cristãos.

Solidariedade. Se procurarmos o significado dessa palavra, vamos encontrar, por exemplo, "boa ação efetuada com sentimento para o bem do outro" (dominador.net) , ou "Sentimento de compadecimento com as dificuldades e/ou sofrimentos de outras pessoas" (dicio.com.br).

Assim, podemos entender que solidariedade é um sentimento que leva os homens a se auxiliarem mutuamente. Portanto, quem é solidário é misericordioso, bom de coração e desprovido de qualquer orgulho e vaidade.

Quando recorremos à Bíblia, no livro de Lucas, no capítulo 10 , Jesus nos dá uma verdadeira aula sobre solidariedade, contando a parábola do Bom Samaritano, um homem que se compadeceu de um judeu que encontrou no seu caminho, espancado por assaltantes e mesmo sendo samaritano, portanto inimigo dos judeus, ajudou aquele homem da melhor maneira possível e sem pensar sequer em reconhecimento.

A lição que Jesus nos deixa é a de que a solidariedade é muito mais do que palavras, discurso, é antes de qualquer outra coisa um sentimento de incomodação, de indignação que gera atitudes de se por em prática ações que libertam, que curam, que ajudam àqueles que necessitam.

Nessa Parábola, Cristo enfatiza o que Ele coloca como o segundo maior mandamento que  expressou em Mateus 22. 37-39 ( “Ame o Senhor, seu Deus, com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente. Este é o maior mandamento e o mais importante. E o segundo mais importante é parecido com o primeiro: “Ame os outros como você ama a você mesmo.”). E quem são os outros? Qualquer pessoa, seja quem for, gente que necessite da nossa solidariedade , pessoas a quem devemos amar com todas as nossas forças, pois são a imagem de Deus.

Em outra passagem, no evangelho de Mateus capítulo 9, Jesus vinha de percorrer cidades e povoados e encontrou uma grande multidão, onde estavam muitos tipos de pessoas, ladrões, adúlteros, prostitutas, bêbados, enfim, todo tipo de gente, que os apóstolos diziam que incomodavam , que viviam espremendo o Mestre em busca de curas e de milagres, mas que Jesus viu e ficou com pena daquelas pessoas, porque eles estavam "aflitos e abandonados, como ovelhas sem pastor" (Mateus 9 .36 NTLH). Para Ele eram pessoas que necessitavam de cuidados, de atenção , de direção.

E aqui aplico um outro versículo, também bastante conhecido, na carta de Tiago, capítulo 2, v.17: " Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ações, é coisa morta."

Portanto, é assim que devemos demonstrar a nossa fé, por meio de ações ! No relacionamento com os outros, exercendo um amor não fingido, sem hipocrisia, no envolvimento com a obra de Deus, no sacrifício pessoal, na doação de recursos, usando os talentos e dons de que Deus nos supriu justamente para que os usássemos no Reino, dispondo do nosso tempo, ou seja, fazendo, agindo!!

Enquanto apenas olharmos as necessidades das pessoas e nada fizermos, não nos dispusermos a ajudar, não estaremos demonstrando fé.  Ações, trabalho, é isso que Deus espera de nós.

Não podemos nos esquecer que nós, igreja, somos a voz e as mãos de Deus aqui na terra, e que tudo o que Ele tem planejado fazer somos nós quem temos que operar. Portanto, sejamos: a voz de quem não tem voz, a justiça dos injustiçados, aqueles que servem, colaboram, os pacificadores, aqueles que se doam , verdadeiros discípulos de Jesus, amando e servindo aos outros como Ele o fez.

Que possamos ser igreja sensível ao sofrimento do próximo, seja ele quem for. Que sejamos igreja que não se alegra com a injustiça, mas com a verdade. Que sejamos uma igreja operosa, unida e feliz no serviço do reino de Deus.

Fernando Marin

Fonte:
http://www.expedicionariosdasaude.org.br/ , visualizada em 21 de julho de 2013.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Ensina a teu Filho, artigo de Frei Betto.






Gosto de escrever, muitas vezes me inspiro em fatos que vejo no cotidiano, na sociedade. Infelizmente, não tenho podido me dedicar mais à produção de textos, as atividades de trabalho me tem tomado tempo.

Mas, se não posso escrever, pelo menos procuro ler. E lendo me deparei com esse excelente artigo de Frei Betto, um teólogo adepto da Teologia da Libertação e ativista social e de movimentos pastorais, onde ele nos ensina que nem tudo está perdido.

Sim, o Brasil é um grande país, onde também há bons políticos e administradores, onde vive um povo trabalhador e criativo, honesto e que mesmo ganhando baixos salários é incapaz de roubar o que seja.

Uma mensagem de otimismo que devemos ensinar aos nossos filhos para que eles busquem um futuro melhor, procurando mais 'serem' do que 'terem'.

Leiam e guardem essas palavras de esperança e fé!

Fernando Marin



Ensina a teu Filho


Por: Frei Betto


Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados, jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável.
Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros, administradores competentes, autoridades honradas, que não se deixam corromper, não varrem as mazelas para debaixo do tapete, não temem desagradar amigos e desapontar poderosos, ousam pensar com a própria cabeça e preservar mais a honra que a vida.
Ensina a teu filho que não ter talento esportivo ou rosto e corpo de modelo, e sentir-se feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a auto-estima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes, e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer.
Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais férteis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue.
Saiba o teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas, griladas ou devolutas são, hoje, chamados de “bandidos”, como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nos trilhos das ferrovias inglesas e Luther King ocupando escolas vetadas aos negros.
Ensina a teu filho que pioneiros e profetas, de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados, pela elite de seu tempo, como subversivos, malfeitores, visionários.
Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de suas vidas no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra, uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita daquela matéria-prima dos lixeiros de Vitória, que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba.
Ensina a teu filho evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que tenta nos incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética. Convence-o de que a felicidade não resulta da soma de prazeres e a via espiritual é um tesouro guardado no fundo do coração – quem consegue abri-lo desfruta de alegrias inefáveis.
Saiba o teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo português e de Zumbi, de Angelim e Frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, dom Helder Câmara e Chico Mendes.
Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz ao unir-se àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.
Ensina a teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem, e se a maioria o tiver será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros imerecidamente tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida.
Ensina a teu filho que a uma pessoa bastam o pão, o vinho e um grande amor. Cultiva nele os desejos do espírito, a reverência pelos mais velhos, o cuidado da natureza, a proteção dos mais frágeis. .
Saiba o teu filho escutar o silêncio, reverenciar as expressões de vida e deixar-se amar por Deus que o habita.
Frei Betto
Extraído de: http://camaradecultura.org/ensina-a-teu-filho-artigo-de-frei-betto/  , visualizado em 15 de julho de 2013



domingo, 7 de julho de 2013

A importância da participação social






Nas últimas semanas, o tema mais discutido foi o das manifestações populares, que surgiram por todo o território brasileiro. O povo, cansado das desigualdades sociais, da corrupção, da impunidade, da péssima qualidade do transporte e de outras coisas mais foi às ruas, em busca das mudanças que almeja.

Alguns questionaram se cabia aos cristãos, às igrejas se manifestarem nas ruas, ou se isso seria contra os princípios bíblicos.

Como forma de melhor esclarecer esse ponto, publico um artigo que retirei do site da Convenção Batista Brasileira, que esclarece bem essa questão. 

Fernando Marin



A importância da participação social

Luciene Fraga
Coordenadora do Departamento de Ação Social da Convenção Batista Brasileira


“Algum tempo depois, muitas pessoas, tanto homens como mulheres, começaram a reclamar contra os seus patrícios judeus. Quando eu, Neemias, ouvi essas queixas, fiquei zangado e resolvi fazer alguma coisa. Repreendi as autoridades do povo e os oficiais e disse: vocês estão explorando os seus irmãos! Depois de pensar nisso, eu reuni todo o povo a fim de tratar desse problema” (Neemias 5.1,6 e 8).

O texto bíblico trata da exploração dos pobres, onde o contexto social da época era cheio de injustiças, exploração entre os próprios judeus, desigualdades sociais, miséria, humilhação, dentre outras questões sociais que afetavam o povo. Neemias ao saber dessas notícias muito se indignou e “resolveu fazer alguma coisa”. Ele foi um governador que ouviu a voz dos cidadãos que se levantaram. Em levantar as suas vozes, em solidariedade com os irmãos da comunidade judaica, e participar no momento social, estes levaram o governador a eliminar as injustiças e lutar pelo direito do povo.

Sem dúvida as manifestações populares recentes refletem frustrações e indagações semelhantes àqueles levantados pelos judeus. Elas são uma ferramenta importante de participação na construção de uma sociedade mais justa. Porém, em algum momento, tendo o governo satisfeito ou não as reivindicações da população, a onda de manifestações provavelmente acalmará. Como, então podemos participar para que as indagações e injustiças não sejam esquecidas?

No Brasil, diferentemente da época de Neemias, gozamos de processos democráticos que visam a participação direta da sociedade civil, não partidária, na construção da sociedade e de políticas públicas. Mas, como funciona esta participação social e de que maneira podemos contribuir na sociedade?

A Constituição de 1988 consagrou o princípio da participação social como forma de afirmação da democracia. A participação social é o envolvimento dos cidadãos nos processos decisórios em uma sociedade e isso implica em entender as variadas ações que diversas forças sociais desenvolvem com o intuito de influenciar a formação, execução, fiscalização e avaliação de políticas públicas na área social como: saúde, educação, habitação, transporte, etc. Uma das formas de participação social é o envolvimento nos conselhos de direitos. Estes conselhos são órgãos colegiados, permanentes, paritários e deliberativos, com objetivo de formular, supervisionar e avaliar as políticas públicas. Os Conselhos tem se constituído como espaços próprios para incorporar pautas e interesses dos setores sociais que buscam a melhoria da qualidade e a universalização da prestação de serviços, destacando-se como instâncias de construção de direitos, onde a comunidade, através de seus representantes, tem oportunidade de dialogar com o governo.

Outro espaço de participação livre da sociedade são as conferências, que abrangem várias áreas setoriais nas esferas municipal, regional, estadual e nacional. Segundo dados da Secretaria Geral do Governo, entre 2003 e 2012 mais de sete milhões de pessoas participaram do debate sobre propostas para as políticas públicas. Ainda este ano e em 2014 estão previstas 19 conferências nacionais, com expectativa de participação de milhões de pessoas, desde as etapas municipais, livres, regionais, estaduais até a etapa nacional. As etapas preparatórias (municipais, territoriais, temáticas) são momentos importantes e ricos no processo de uma conferência. É nelas que o debate se intensifica, tanto nos temas nacionais como nos locais, proporcionando ao cidadão oportunidade de propor soluções para os problemas da sua cidade, estado e do país.

É fundamental que nós estimulemos os membros de nossas igrejas a participarem nestes espaços públicos. Especialmente diante das manifestações que deixam claro que, até então, a voz da sociedade civil não recebeu atenção suficiente na construção das políticas públicas do país. Procure a CAS - Coordenadoria de Assistência Social do seu município e se informe com as datas das conferências. Abaixo segue a relação de algumas conferências estaduais e nacionais.


2ª Conferência Nacional de desenvolvimento Rural e sustentável
Etapa estadual: 01/06 e 30/07/2013.
Etapa nacional : 09/2013.

2ª Conferência Nacional de Educação
Etapa estadual: 01/07 a 30/09/13
Etapa Nacional:14 a 21/02/14

4ª Conferência Nacional infanto-juvenil pelo meio Ambiente
Etapa municipal:31/11/2013
Etapa estadual: até 17/08/13
Etapa nacional: 10 a 14/10/13

4ª Conferência Nacional de Meio Ambiente
Etapa estadual: de 30/05 a 10/09/13
Etapa nacional: 24 a 27/10/13

9ª Conferência Nacional de Assistência Social
Etapa municipal:08/05 a 09/08/2013
Etapa estadual: até 08/10/13
Etapa nacional: 16 a 19/12/13

Prezado pastor e líder, incentive os membros da sua igreja a se engajarem em alguma área de participação social, podemos neste tempo ser como Neemias que não ficou estático e lutou em prol de uma sociedade mais justa.
Quer saber mais: www.secretariageral.gov.br .

visualizado em 7 de julho de 2013

sábado, 29 de junho de 2013

O Grito Marginal










É, como dizem, o gigante acordou. Ele, que estava deitado eternamente em um berço esplêndido, levantou-se contra aqueles que, aproveitando-se dessa situação de letargia, partiram para espoliarem, pilharem o sofrido povo brasileiro, privarem-no de uma saúde digna, de um transporte barato e confortável, de uma educação que realmente dê condições à população de evoluir como pessoas, fazerem uma carreira profissional de sucesso- o que hoje é para poucos. Enfim, o gigante se levanta e descobre que é mais forte do que pensava, que as finas amarras pelas quais estava atado não podiam contê-lo diante de tantas situações de injustiça social, de corrupção, de arrogância da parte da maioria dos políticos que, longe de representarem os interesses do povo, cuidam mais dos seus próprios.

Creio que seguimos para a construção de um novo Brasil socialmente mais justo e menos corroído pelos maus políticos e suas habilidades corruptas, um país que sabe aproveitar-se das suas imensas riquezas naturais, que possui uma população trabalhadora, honesta, simples, e que não mais aceitará calada os desmandos e ladroagens que até hoje se instalaram comodamente no poder.

Chega!

Posto, abaixo, um artigo de autoria do meu amigo, o Israel Barbosa, que ao longo dos seus 70 anos de vida, sofreu, lutou e , agora, espera ver realizado o sonho de um país justo e honesto para que seus filhos e netos tenham uma vida melhor.

Fernando Marin





O grito marginal

Por: Israel Santana    


Quando nos deparamos com o que está acontecendo nas ruas do nosso país varonil, invocamos os anos setenta, onde havia enfrentamento contra a ditadura, através de protestos, passeatas e até mesmo de guerrilha urbana e rural como base para a revolta popular.


Tinha-se uma visão crítica e um empenho em ações coletivas visando construir um mundo melhor. As recentes manifestações de rua, são a continuidade de outras semelhantes, e a confluência de diversos grupos organizados ou não, em torno de lutas sociais e/ou politicas diversificadas.


Nos anos setenta, a grande maioria da população e a maioria da juventude, estava alienada às grandes questões que se debatiam no Brasil e no mundo, além do fato da ditadura ter proporcionado um tal de" milagre econômico"que calava a boca de muita gente e enchia a barriga de muitos. Naquele tempo a seleção canarinho conquistava o tricampeonato mundial de futebol que cria, como agora, uma euforia natural para se explorar um nacionalismo ingênuo, mas convincente.


Esse movimento nos lembra que politização é possível e que politicidade é direito de todos. É de se esperar que o povo não lute por apenas vinte centavos, mas que continue nas ruas por moralidade nos serviços públicos, transparência nos negócios, educação de qualidade e saúde para todos. Leonardo Boff assim se expressou recentemente: " Nutro a convicção de que a partir de agora se poderá refundar o Brasil a partir de onde sempre deveria ter começado, a partir do povo mesmo que já encostou nos limites do Brasil feito para as elites. Estas costumavam fazer política pobre para os pobres e rica para os ricos."


E, finalmente, o gigante ferido acordou para o bem de todos e felicidade geral da nação.

Israel Santana
Pernambucano, pastor batista, missionário, atualmente congregando na Primeira Igreja Batista em Rio Largo (AL).

domingo, 16 de junho de 2013

Igreja e sociedade







Igreja e sociedade




Por: Fernando Marin


 Nos últimos dias a nação se surpreendeu com protestos em várias cidades motivados pelos aumentos das tarifas do transporte público. Surpresa maior, foi constatar que essas manifestações foram espontâneas, ou seja, não foram organizadas por partidos políticos, agremiações estudantis, não, elas partiram de postagens nas redes sociais, que meu amigo de Manaus, o Josenilson, chama de "o maior de todos os partidos políticos".

 Essas manifestações foram reprimidas com violência, o que veio a causar mais violência ainda, com vandalismo, depredações, como acontece em qualquer outra parte do mundo. O que mais revoltou a população foi o fato de  que a polícia, em geral, não está preparada - talvez por falta de hábito - a lidar com manifestações populares, o que, talvez, tenha gerado atos desproporcionais de ambos os lados.

 Com certeza, não foi coincidência que esses protestos estejam acontecendo ao mesmo tempo em que a Copa das Confederações se inicia, creio que a Copa tem grande parcela de responsabilidade neles, devido aos bilhões de reais investidos em estádios, sempre com a justificativa de que esse é um investimento que trará turistas ao país.

 Sim, com certeza, até porque poucos são os brasileiros que podem pagar pelos ingressos caros dos jogos e, portanto, usufruir do conforto dos novos estádios, todos nas mãos da FIFA, que explora até mesmo quem opera os bares e demais serviços nesses locais, mas principalmente porque o povo está ocupado demais nas filas para conseguir uma consulta médica, um exame, uma cirurgia ou às voltas com a baixa qualidade das escolas (apenas 0,6% delas são consideradas de padrão ideal), ou correndo de assaltantes, de balas perdidas  e por aí vai.

 Na abertura da Copa, uma grande vaia surpreendeu e constrangeu o presidente da FIFA e a nossa própria presidente ( não me acostumo de forma alguma com a palavra 'presidenta"), mostrando o descontentamento popular com a forma pela qual o Brasil está sendo "governado", apesar das pesquisas que dão ampla aprovação do povo com o atual governo ( bom, pesquisas não são mesmo muito confiáveis).

 Paralelamente, outras manifestações estão sendo programadas, agora cobrando punição para corruptos, contra a violência, pedindo moradia e outros direitos dos quais grande parcela da população brasileira está alijada, deixando o governo em uma situação delicada em uma época em que o  país é o foco das atenções esportivas mundiais.

 Mas, uma frase me chamou a atenção nisso tudo. Ela foi postada por alguém em uma rede social, e dizia algo assim:"Pastor, deixe seu púlpito e vá para as ruas cobrar os direitos das pessoas!".

 E aí, me pergunto: qual é o papel da igreja frente às demandas sociais justas?

 Quando recorremos à Bíblia, e analisamos os evangelhos com olhos cuidadosos, constatamos que a verdadeira salvação envolve corpo, alma e espírito. Quando lemos em Mateus capítulo 25, versos 34-36 ( " Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: 'Venham, vocês que são abençoados pelo meu Pai! Venham e recebam o Reino que o meu Pai preparou para vocês desde a criação do mundo'".), entendemos que o Reino será daqueles que: alimentaram ( "Pois eu estava com fome, e vocês me deram comida; estava com sede, e me deram água") ; foram hospitaleiros ( "Era estrangeiro, e me receberam na sua casa"); cuidaram ( "Estava sem roupa, e me vestiram; estava doente, e cuidaram de mim");  foram solidários ("Estava na cadeia, e foram me visitar".). E o texto nos deixa bem claro que quando deixamos de ajudar a quem precisa, nos afastamos da vontade de Jesus (" O Rei responderá: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: todas as vezes que vocês deixaram de ajudar uma destas pessoas mais humildes, foi a mim que deixaram de ajudar" Cap.25 verso 45).

 Ainda na Bíblia, encontramos uma forte argumentação libertadora partindo do próprio Deus, como lemos no Êxodo. Lá, Ele recebe os pedidos do povo que se encontrava escravizado e oprimido no Egito e nomeia Moisés para libertar israel do cativeiro, conduzindo -os para a terra que "mana leite e mel".

 Como teólogo, não posso me omitir em relação à Teologia da Libertação, da década de 70, que foi considerada comunista devido justamente à sua argumentação pró-libertação do povo frente às opressões causadas pelo capitalismo, por governos ditatoriais, pela miséria, fome, falta de educação, saúde pública, emprego, moradia.

 Sim, creio que os pastores, padres e demais líderes cristãos deveriam estar à frente do povo de Deus exigindo que os direitos da população sejam respeitados, que todos possam usufruir do Reino já, desde agora, levando uma vida digna e sendo verdadeiramente libertos de todo o tipo de opressão e desigualdade social.

 Essa é a verdadeira salvação a que se refere Jesus Cristo !

Fernando Marin