domingo, 24 de maio de 2015

A igreja esqueceu !



A igreja esqueceu

Sim, tantas coisas acontecendo, tanto para ser dito ou escrito e essa falta de tempo não me permite. Mas, Deus é mesmo bom, e dá a inspiração necessária a mais alguém, para que se diga o que tem que ser dito.

E Deus me colocou em contato com o Pr Barbosa Neto, lá de Fortaleza, através de um grupo de discussão. E, lendo seus escritos, encontrei mais esse, que traduz bem a situação que se coloca hoje, do Evangelho fácil, da igreja-empresa, do pastor administrador e empreendedor.

Mas, será que foi isso que Jesus ensinou?

No artigo abaixo o Pr Barbosa fala - e muito bem - sobre a questão, e nos alerta sobre o que temos visto e feito nos dias atuais.

Leia e reflita.

Pr Fernando Marin


DEGENERAÇÃO DO MINISTÉRIO – VERDADE QUE PRECISA SER DITA – 1


Pr Barbosa Neto


 Muitas coisas têm sido ensinadas sobre a Igreja de Jesus nos últimos anos, mas estou mais que convencido que um grande erro tem sido ensinado sobre a Noiva de Cristo. Quando paramos para estudar a Palavra de Deus no seu original, vemos que o termo usado para definir a Igreja é a palavra ekklesia, que, literalmente, significa: chamados para fora, reunião popular, especialmente uma congregação religiosa (sinagoga judaica, comunidade cristã de membros na  terra ou no céu, ou em ambos), de acordo com o Dicionário Strong.

 Igreja não é uma empresa.  Igreja não é um modismo, igreja, na raiz da palavra, é um ajuntamento popular religioso. O nome igreja, como é usado entre nós, significa simplesmente uma assembleia, um ajuntamento. Porém, minha intenção aqui é entrar profundamente na nossa condição moral, teológica e congregacional. Tenho uma grande preocupação em minha vida em relação à Igreja, e esta preocupação é: de acordo com o que temos visto hoje em dia, o que será da Igreja de Jesus daqui a dez anos?

 Willian Booth, fundador do Exército da Salvação, um grupo que fez muito por missões na história da Igreja, também disse temer  que, em cem anos, a igreja viesse a experimentar um Cristianismo sem Cristo e um Evangelho sem cruz. Uma das coisas que mais tenho observado no “evangelho” pregado por muitos pregoeiros por aí afora, alguns até mesmo famosos, um “evangelho” onde falta Cruz e o desaparecimento de Cristo nas mensagens. Pelo menos daquele Cristo das Sagradas Escrituras.   

 Tenho observado que alguns pregadores não apontam mais o pecado e estes pastores estão se tornando homens de negócios eclesiásticos. Os cultos tem se tornado mais encontros de entretenimento. Ministérios que estão se tornando marca patenteadas, gerando recursos sem fim que são gastos em vaidades pessoais, e não, em missões ou na obra de Deus como um todo.

 O ministério da Igreja do Senhor, que é o de ser representante de Deus aqui, propagando o glorioso Evangelho, tem sido vendido por pequenos pratos de lentilha, à medida que, diariamente, buscamos agradar aos homens, sem nos importar com o que Deus espera de cada um de nós. Creio que um dos grandes problemas em relação ao que estamos vivendo hoje, como igreja, é o fato de a grande e esmagadora maioria dos pregadores não fazerem a menor ideia de quem foram os homens e mulheres que Deus usou no passado para que hoje estivéssemos aqui. A ignorância em relação à História da Igreja e da nossa história propriamente dita, em particular, tem nos levado  ao abismo do esquecimento, no qual despejamos no ralo os nomes dos heróis de Deus dos séculos passados.

 Nada do que estamos pisando, ou melhor, as plataformas sobre as quais estamos pisando têm sido criadas  por nossas boas ideias ou por novas doutrinas. A falta de conhecimento dessa verdade tem levado homens a tomarem para si a glória de uma casa que não foi feita por eles. Hoje, muitas pessoas têm tomado para si algumas glórias e honras que, se parássemos mesmo para observar, não teríamos coragem de assumir como suas.

 Os assim-chamados pais da Igreja não andaram por aí buscando seu reconhecimento, mas andaram, fazendo a vontade de Deus e lutando por Ele. As raízes, como por exemplo, dos metodistas, que são filhos de Wesley, os presbiterianos, filhos de Knox, nós, os batistas e tantas outras igrejas históricas devem ser novamente medidas para que possam tomar o seu devido lugar na árvore que foi plantada. Se nós olharmos para o passado, iremos ver que não nos parecemos em quase nada com os pais que tivemos... Os pais das nossas igrejas neotestamentárias eram homem vigorosos contra o pecado e contra o mundo, mas, estamos tentando acabar com o que eles fizerem e nos legaram... Estamos hoje, pasmem, simpatizantes com o ecumenismo, achando-o simpático...

 Nossas raízes, nossos pais do passado, bem como a História da Igreja está recheada de grandes exemplos que ficaram confinados ou estão apenas em livros que estão empoeirados nas prateleiras de nossas bibliotecas domésticas ou livrarias... Enquanto isso, livros sobre aceitação pessoal, de autoajuda de cura interior estão se tornando leitura de cabeceira de pregadores famosos que estão ensinando as pessoas a olharem para seu umbigo e se esquecerem da Cruz, da renúncia, da confissões de pecados, do arrependimento, do amor a Deus!...

 Podemos ir um pouco mais longe em nossas raízes, se voltarmos a 2000 anos e olhar como os primeiros cristãos viveram e isso sem contar com o próprio exemplo do Senhor Jesus!... Poderíamos ver como os discípulos de Jesus transformaram o mundo. Ver como, em meio a perseguições e dificuldades tremendas, eles não negaram sua fé no Senhor Jesus por nada desta vida!... Poderíamos ver como a história foi mudada por um pequeno grupo de pessoas que não tinha nada demais, a não ser a fé genuína – que vem faltando hoje em nosso arraiais.  Ver como aqueles homens tão complicados e de temperamentos diversos puderam fazer coisa notáveis. É de nos fazer vergonha hoje quando olhamos e nos relembramos, historicamente, sobre aquilo que eles fizeram em tão curto tempo, mesmo diante de tantas e imensas dificuldades e perseguições. Pagaram com a própria vida um alto preço para que nós hoje aqui estivéssemos vivos!...

 E pasmem: nossos primeiros pais cristãos, os apóstolos, não foram pessoais sensacionais, mas foram homens corajosos. Vajam, por exemplo, Pedro, sanguíneo por natureza, sempre falando antes de pensar. Pedro repreendeu Jesus, porque disse que iria morrer (Mateus 16.23). Em outra ocasião, Jesus estava para lavar os pés dos discípulos e Pedro não permitiu. Jesus o repreendeu mais uma vez (João 13.8). Em outra ocasião, Tiago e João foram com sua mãe pedir a Jesus lugares especiais no Céu (Mateus 20.20),  e isso trouxe indignação aos outros discípulos (v. 24). Simão era zelote e os zelotes lutavam pela independência política dos judeus, e acreditavam no uso da força (Lucas 6.15. Mateus era cobrador de impostos, considerado traidor da nação e reprovável (Mateus 10. 2, 18.17). E assim seguem os exemplos. Estes eram os homens que Jesus dispunha.

 Contudo, mesmo esses homens com todos os seus problemas, dificuldades e limitações humanas, contribuíram e muito para que pudéssemos estar aqui hoje, sem levantar a nossa própria bandeira. Quando lemos um pouco mais acima que Mateus era publicano, vemos que ele próprio usou este termo em referência a si mesmo. Vemos também que nenhum dos outros três evangelistas usaram o nome de publicano para descrever Mateus, mas ele sabia sua posição. Não estava escrevendo seu nome na escadaria dos regenerados, porém estava ele próprio apontando para o pecador chamado Mateus.  Nossos pais não lutaram por si, lutaram pelo Senhor; não buscaram a sua glória, mas buscaram a glória que seria dada ao Senhor! Nós, que estamos falando tanto nesses últimos anos a respeito da unção de Elias, precisamos, sim, ser atingidos por ela. Malaquias disse que a unção de Elias iria: “... converter o coração dos pais aos filhos e dos filhos aos pais...” (4.6). Precisamos, portanto, converter nossos corações aos nossos pais, que andaram com o Senhor, para que possamos aprender com eles como conduzir a Igreja de Jesus, Sua tão amada Noiva!

 Uma situação bem pertinente, ao citar exemplos, é o fato de os Puritanos terem questionado a Igreja estatal inglesa por causa dos costumes. Eles estavam questionando por que não se estava colocando as verdades antes das tradições e das autoridades. Questionavam, principalmente, sobre as vestes clericais: “... se não são importantes, por que vocês as impõem obrigatoriamente?...”.  Creio que seja bem pertinente para nós esta situação porque, em nossos dias, é exatamente o que temos visto: costumes antes da verdade e tradições mais importantes que a espiritualidade. Um Puritano verdadeiro não se conformava com o fato de a igreja estar apenas parcialmente reformada, carregando ainda consigo resquícios católico-romano.  

 Meus amados, precisamos hoje, urgentemente, dar uma parada e analisarmos o que tem sido dito de nossos pais. Pastores, acordem para a verdade de que, não estamos fazendo nada demais, mas estamos continuando a levantar uma parede que está colocada, e, em muitos lugares, abandonada... Não estamos aqui para lançar novos alicerces, o alicerce está posto (Isaías 28.16; I Coríntios 3.11), porém precisamos atentar para a exortação de Paulo, no que ele nos diz: “... mas veja cada um como edifica sobre ele....”, sobre o alicerce (I Coríntios 3.10. Para sabermos sobre o que estamos construindo, precisamos analisar os livros da nossa História e vermos se estamos no caminho certo ou se precisamos parar para aprendermos COMO fazer. Jesus é o alicerce sobre o qual a Igreja está sendo construída. Os apóstolos começaram a construir sobre este alicerce, e muitos homens de Deus continuaram, colocando mais tijolos para erguer as  paredes.

 A obra esteve caminhando em ritmo lentíssimo por algum tempo, tijolos diferentes foram colocados, a parede foi estragada, mas um reformador corajoso apareceu e começou a quebrar o que estava colocado errado. Nós precisamos aprender com ele como trabalhar nesta parede. Muitos outros reformadores apareceram e continuaram as obras, e nós, hoje, precisamos continuá-la até que chegue a hora de colocar o telhado.
Disse Jeremias pelo Senhor: “...Maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente! Maldito aquele  que retém a sua espada do sangue” (48.10). Jeremias protesta aqui pelo Senhor, dizendo que amaldiçoado é o homem que faz a obra com negligência, com descuido e relaxadamente. Maldito o homem que vê o que está errado e se assenta para curtir a vida e não soa o alarme, maldito  aquele que vê a Igreja sendo abusada e permanece com a sua trombeta guardada e não toca o alarme chamando a atenção do povo e de seus ministros.

 Tiago diz que aquele que sabe fazer o bem e não o faz comete pecado (4.17). E um dos maiores bens que podemos fazer para a igreja de Jesus é gritar BASTA para que o está acontecendo. É protestar contra os fraudulentos e degenerados, contra os amantes do ouro e da prata que estão ensinando o povo a amar suas posses e bens financeiros e se afastarem do Senhor. O trigo que está sendo plantado está sendo trocado por uma plantação de joio e não estamos nem aí...

 Em Juízes 6.27, vemos algo que é bem relacionado ao que estamos falando. Gideão foi chamado por Deus, e a ordem de Deus era que ele destruísse o altar a baal (Juízes 6.28). Gideão fez o que o Senhor lhe disse para fazer, mas ele o fez de madrugada, por temer o povo. Eu digo que este texto é relacionado à nossa situação atual pelo simples fato de que nem de madrugada, escondidos dos homens, estamos derrubando os postes de baal, mas elogiando de maneira comprometedora aos seus líderes e os achando bonzinhos! Estamos tolerando baal e seus postes ídolos e não temos coragem de obedecer ao Senhor!...Se olhássemos para o exemplo de Gideão estaríamos, pelos menos, tentando fazer as coisas às escondidas. Contundo, nem assim estamos fazendo!...

 Elias zombou dos profetas de baal, mas a nós tem sido ensinado que devemos respeitá-los... A verdade é que não estamos fazendo oposição, nem zombando deles tampouco. Bem, em algumas situações, é até bom para o bem-estar de alguns pregadores não zombarem dos profetas de baal nem do próprio baal, pois, suas vidas são testemunhas que depõem a favor de seus inimigos... Os superstares não podem confrontar baal, pois estão corrompidos até aos cabelos e estão corrompendo o povo juntamente com ele. Como podem confrontar estando em terreno escorregadio, em lugares estranhos sem a mínima condição de estarem lá? Como poderiam ir à guerra desarmados e desprotegidos? Se essas pessoas começarem a abrir a boca e a falar contra baal, seria como colocar um americano coma foto do presidente dos Estados Unidos Barack Hussein Obama II estampada na camiseta que veste e uma bandeira iraquiana em suas mãos ardendo em chamas na cidade de Bagdá. Esse coitado não duraria trinta segundos vivo!...

 Tenho visto não poucos pastores fazendo a seguinte afirmativa: “... um pastor precisa ter uma visão empresarial hoje em dia, se quiser ser bem sucedido no ministério...”. De tudo o que tenho ouvido, está é uma das mais nocivas perspectivas que se tem propagado por aí em relação à igreja. Quando nós, pastores, começamos a olhar a igreja, a congregação local da qual cuidamos, meramente como uma instituição, ferimos sua principal característica: a que nos diz que ela é a Noiva, que está sendo preparada para um Noivo muito especial. Ai daqueles que estão pervertendo a Igreja, transformando-a em um negócio lucrativo em benefício próprio.
Você, caro colega, que está lendo estas longas linhas, já se aborrecendo com eles, já com soneira porque não tem habito ler, e você que um dia pretende ser pastor, atente bem para isto: o chamado vocacional não é para administrar um negócio, uma empresa religiosa lucrativa, mas para cuidar de vidas! A igreja, caros colegas, não é estrutura armada à nossa volta. As nossas igrejas locais são formadas de pessoas que, em muitas vezes, precisam ser ajudadas, instruídas, aconselhadas e amadas. Ela é formada de gente, de carne e ossos, não de coisas e utensílios mobiliários climatizados. Precisamos, sim, de alguma estrutura para servir aos irmãos e irmãs, precisamos de organização local, mas não é a prioridade vivermos por isso! A prioridade são as pessoas!    

 Talvez seja questionado se a programação não vai abençoar o povo. Eu digo, sem medo de errar, que, em sua grande e esmagadora maioria, os programas servem simplesmente como um analgésico para tirar a dor, enquanto a ferida permanece profundamente instalada nas pessoas. Canta-se tanto, mas tanto em nossos cultos, a programação é tão exaustiva, que sobra pouco tempo para a ministração da Palavra, e o pregador, coitado, que preparou uma mensagem palavra alimentar e saciar as pessoas, tem que correr às pressas, ou tem que às vezes ‘cortar’ a mensagem, porque a liturgia do culto tem que terminar rigorosamente no horário, senão algumas pessoa podem  reclamar!...

 As pessoas podem rir, chorar, emocionar-se com o espetáculo religioso, mas, quando voltam para casa, serão as mesmas de sempre. Não houve aplicação correta da Palavra por falta de tempo... Isso porque, ao invés de cuidarmos da ferida, estamos tentando camuflá-la. Se cuidássemos mais em buscar as pessoas que precisam de ajuda, se nos voltássemos para a ação de curar a igreja e de curar o povo das mazelas da alma, ensinando profundamente o Evangelho, apontando o caminho da salvação e tirando-as do caminho do pecado, não precisaríamos de boas programações festivas demais para entreter o povo, para tentar fazê-lo feliz... As pessoas seriam mais felizes por conhecer a Verdade, mas a Verdade está sendo trocada por um monte de programações analgéticas. Pensemos nisso, séria e urgentemente.

 Paulo nos diz em Gálatas 6.2: “...levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo...”. Caros colegas, Jesus nunca ficou acomodado, e nós também não podemos ficar. Se Ele é o nosso Senhor, se afirmamos que somos d’Ele, como podemos ser diferentes? Pessoas estão se acabando em nosso meio, e estamos sentados em nossos gabinetes climatizados, com secretária filtrando a entrar das pessoas em nosso gabinete, enquanto lá fora a vida das pessoas estão se esgotando, enquanto curtimos nosso sossego, preparando nossos cultos da bênção sem o Abençoador! O problema é que estamos tão empresariais como igreja, que o amor está sendo trocado pela pura e simples camaradagem fraternal, mas sem compromisso pessoal!...

 Se uma pessoa está faltando aos cultos ou se uma pessoa sai da igreja local, a obrigado do pastor é buscá-la, cuidar dela, não abandoná-la. O Senhor Jesus disse: “Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?” (Lucas 15.4).

 Você, caro colega, é um vocacionado, um chamado por Deus ou um oferecido para realizar a obra pensando ser vocacionado? Pense nisso e responda esta pergunta com muita sinceridade diante de Deus! Tenhamos em nossa mente: não somos profissionais da fé, mesmo que vivamos disto, porque está escrito: “porque digno é o trabalhador do seu salário” (Lucas 10.7; I Timóteo 5.18). Saiba viver na mais total dependência do Senhor, pois aos chamados verdadeiramente Ele supre todas as suas necessidades, através dos Seus filhos e filhas, que tem amor e dedicação e desprendimento no segurar as cordas daqueles que estão consumindo a sua vida na obra do Senhor. Você precisa apenas ser honesto. No máximo compartilhe as suas necessidades, sabendo que o Senhor trabalhará nos corações generosos e benevolentes, porque “aquele que dá semente ao que semeia e pão para alimento também aumentará a vossa sementeira e multiplicará os frutos da vossa justiça... porque o serviço desta assistência não só supre a necessidade dos santos, mas também redunda em muitas graças a Deus” (II Coríntios 9.10, 12).

 Quando fazemos o que temos que fazer, não precisamos ser reconhecidos ou recompensados. Jesus nos disse o seguinte: “...Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lucas 17.10). Muitos passam os dias em seus gabinetes luxuosos e climatizados, administrando agendas, fazendo contas e imaginando o que fazer para a igreja crescer numericamente, o que é um trabalho secundário. Deixam de fazer o que é produtivo, que é visitar os enfermos, acudir os necessitados, confirmar os fracos, pregar nos lares, exortar, ir atrás da ovelha perdida e desgarrada e gastar tempo significativo lendo e estudando a Palavra com profundidade e orando com os irmãos. Há pastores que só leem a Bíblia na hora de irem para a igreja pregar sabe-se o quê...

 Pastores não são administradores eclesiásticos: são guardadores da Noiva e não seus mentores. A crescente degeneração do ministério, e neste caso, do ministério pastoral, vem da falta de observarmos uma coisa bem simples, chamada pelo apóstolo Paulo de “...simplicidade e pureza que há em Cristo...” (II Coríntios 11.3).

 Volto a repetir para que você não se esqueça disso jamais, amado colega: pastores não precisam de visão empresarial nem de um espírito empreendedor para tomar conta de sua igreja local! Pense nisso, seriamente! Ele precisa de amor, de zelo pelo próximo, e não interesse nos bens do próximo (como é triste ter que citar isso!). Ele precisa de integridade moral, de sabedoria, de zelo, de fervor... Um pastor, comprovadamente vocacionado,  não precisa fazer um curso de gestão de igrejas; ele precisa de um bom curso de teologia, mas que não se deixe contaminar somente pelo academicismo sem aquele mergulho nas Sagradas Escrituras, e é isso que está faltando hoje em dia por aí afora... Nossos cursos de bacharel em teologia existentes por aí afora não estão preparando e preparando muito bem aos nossos futuros obreiros, mas apenas formando teólogos de gabinetes... Quem estar cursando teologia e se sente vocacionada e chamado para trabalhar no sertão do Nordeste, quem? Aquilo que hoje se aprende em nossos seminários, lamentavelmente, poucas são as coisas que seus alunos aplicam no dia a dia da igreja local que pensa servir... Em alguns locais tido como acadêmicos, os alunos não são instruídos sobre como agir em aconselhamento, como, por exemplo, ajudar numa briga conjugal e vai por aí afora... Em muitos locais acadêmicos pouco ou quase nada existe elevado nível de espiritualidade, momento devocional, momentos à sós com Deus, momentos para orar, para ser ensinado ao futuro pastor como orar e saber ouvir a voz do Senhor!... Hoje a correria é demais...

 Temo que em alguns anos estejamos vendo no Brasil o que já acontece hoje nos EE.UU e em boa parte da Europa: cursos profissionalizantes para ministros do evangelho, nos quais é outorgada pela lei uma carteirinha. Com ela, é permitido ao indivíduo atuar como agente religioso para efetuar casamentos, ritos religiosos, batismos e aconselhamentos gerais... São os profissionais do púlpito com vasto currículo acadêmico, mas seus candidatos sem nenhuma comunhão com Deus!...

 Provavelmente muitos dos nossos colegas não gostaram nem um pouco do que acima lhes foi dito. Pouco me importa!... Deus mandou falar sobre isso e eu apenas Lhe obedeci. E ponto. Reclame para Ele. Quero finalmente lhes dizer que Deus nos chama por meio de uma vocação, oferece-nos gratuitamente o grande privilégio de cuidarmos de Sua Igreja. Não podemos aproveitar a situação para nos darmos bem... Muito cuidado, pois com Deus não se brinca!... Você não pode ser um empresário eclesiástico, mas Ele exige que você seja apenas um pastor! Que cuide das ovelhas, que tenha cheiro de ovelha, que ame o povo, que pregue a Palavra, que ensine o Evangelho, que é a “palavra da verdade do evangelho” (Colossenses 1.4), e que tire as pessoas do caminho da perdição religiosa!

 Só isso. nada mais que isso!...

Pr Barbosa Neto

sábado, 9 de maio de 2015

A imaturidade nossa de cada dia


A imaturidade nossa de cada dia

Gostaria de ter escrito isso, mas, na minha atual falta de tempo, me ví compelido a republicar esse excelente artigo da Dra Norma Braga, depois de lê-lo em uma postagem do amigo Décio Simioni.

Com muita clareza, Norma nos explica como devemos agir em relação às diferenças de ideias, de pensamentos e de religiões, para estarmos bem no centro do que Jesus nos ensinou.

Numa época em que assistimos à intolerância em relação a diversos temas, a Dra Norma nos chama à realidade e nos dá um "puxão de orelhas" bastante oportuno e bem vindo.

Leia e faça a sua reflexão.

Fernando Marin



                                           A imaturidade nossa de cada dia

Por: Norma Braga


 Em novembro de 2012, alunos evangélicos de Manaus se recusaram a apresentar um trabalho sobre religiões afro-brasileiras em uma feira sobre cultura africana. Revoltados, armaram uma tenda fora da escola e decidiram falar sobre missões evangélicas na África. Logicamente, o trabalho não recebeu nota. Uma das reclamações adicionais foi a leitura obrigatória de Jorge Amado, com suas referências ao homossexualismo.

 Entristeci-me com as implicações do episódio. Não duvido da sinceridade dos meninos, nem de sua fé, de modo algum. Eles acertaram ao identificar tanto as religiões afro-brasileiras quanto o homossexualismo como inseridos em um espírito de antítese à fé cristã. Mas faltou-lhes um terreno bíblico sólido para lidar sabiamente com essa antítese e reagir de um modo que correspondesse ao papel que Jesus espera de nós como agentes transformadores da cultura.

 Antes de tudo, preciso afirmar que eles pecaram ao desobedecer às ordens dos professores. Diz Calvino, em consonância com a Bíblia (Atos 5.29), que só podemos desobedecer às autoridades caso elas nos ordenem a desobedecer a Deus. Embora escorados em uma cosmovisão não-cristã, como aliás é o estado de toda a educação secular hoje, os professores não lhes ordenaram que pecassem ao pedir tal trabalho, nem ao passar-lhes a leitura de Jorge Amado. Por quê? Porque é possível trabalhar com conteúdos não-cristãos sem aderir a eles, simplesmente. Essa é uma realidade que a igreja brasileira precisa enxergar com urgência. Toda religião pode ser analisada à luz de seu impacto cultural, e mesmo cosmovisões apóstatas têm seus momentos de verdade. Com o tema em mãos, os alunos poderiam ter comunicado algum aspecto positivo nas manifestações culturais e literárias analisadas; e, ainda que não aceitassem nada de positivo nelas, poderiam ter recorrido ao expediente de citar terceiros. Em seguida, acrescentariam uma "opinião pessoal" sobre o assunto, inclusive apresentando informações sobre as missões africanas. Desse modo, não teriam desobedecido, mentido nem ferido suas consciências, e ainda comunicariam aos professores e a todos os participantes da feira alguma verdade sobre a fé cristã. Ouvi mais de um relato de estudantes cristãos que adotaram esse procedimento, com ótimos resultados.

 Em vez de procederem à revolta aberta, idealmente os alunos teriam sido despertados por seus pais e pastores para o aspecto louvável da iniciativa da escola, que consiste no seguinte: por décadas a fio, o pressuposto de todo o ensino institucional tem sido materialista e ateu; quando alguém propõe que se fale de determinada religião no ambiente escolar, está quebrando uma gigantesca barreira e indiretamente cavando espaço para que os estudantes também falem de suas crenças. Onde foi apontada uma ordem abusiva e intolerável, havia uma abertura para a pregação do Evangelho — que infelizmente, por imaturidade pessoal e teológica, deixou de ser percebida.

 A chave para a compreensão dessa diferença fundamental na segunda atitude em relação à primeira não é um argumento, mas sim uma postura interior, que poderia ser descrita assim: em vez de esperar que o mundo aja em conformidade com a Palavra de Deus e rebelar-se e retirar-se (Jo 17.15) quando isso não ocorre (passividade e ira), nós salgamos o mundo (Mt 5.13), sabendo que todos os que têm algum contato conosco na vida são alvos potenciais da graça de Deus (atuação e amor). No primeiro caso, fechamos os olhos para a cultura e para as percepções alheias, ignorando tanto pecados quanto momentos de verdade; no segundo, trabalhamos com a cultura, mas sem nos deixarmos submergir por ela. Se a preocupação dos alunos era apologética, eles deveriam ter sido orientados para a compreensão de que não há apologética sem diálogo. A tenda fora da escola simbolizou o desejo de falar sem ouvir em um espaço "neutro": pura fantasia, que ainda é bastante atuante na alma da igreja brasileira, infelizmente, mesmo entre adultos e até líderes, que deveriam manifestar uma postura mais madura.

 A Bíblia nos fornece um exemplo emblemático de um tratamento equilibrado e eficaz da cultura nas palavras do apóstolo Paulo. A consciência da presença da cultura no próprio ato de evangelização é uma constante nele. Em Atos 17, uma das passagens bíblicas mais interessantes do Novo Testamento, atestamos a capacidade de adaptação do apóstolo na apresentação da mensagem. Na sinagoga (Atos 17.2-4), diante de judeus eruditos, seu ponto de partida é a cultura comum daquele ambiente, ou seja, o conhecimento das Escrituras, e, partindo disso, a identificação de Jesus como o Messias. No mesmo capítulo, já no Areópago (Atos 17.19-34), Paulo inicia sua explanação de um modo totalmente diferente com os gregos que ali estavam — filósofos estoicos e epicureus —, mas imbuído do mesmo princípio: ele parte da cultura comum daquele ambiente para apresentar o mesmo Cristo como o Messias, a quem Deus ressuscitou dos mortos. Ele começa com a menção a um “deus desconhecido”, aparentemente distante de todas as excessivas humanizações atribuídas aos deuses conhecidos que reinavam em Atenas, para falar do Deus da Bíblia, que não precisa dos homens (os deuses atenienses precisavam de ofertas constantes) nem habita em templos. Ele começa a combater a idolatria reinante ali partindo de algo que já estava presente naquela cultura. E, embora a maioria dos presentes tenha zombado dele — pois falou em “ressurreição dos mortos” a um público que só queria saber das “últimas novidades” e provavelmente não levava a religião a sério ao ponto de crer em milagres — , várias almas foram salvas naquele dia.

 Paulo se utilizou magistralmente de conteúdos da cultura grega, sem ceder um milímetro nas considerações acerca da verdade do Evangelho. Podemos seguir seu modelo. Mas, se ignoramos os dados da cultura e nos fechamos pada a voz do outro, acabamos desprezando a humanidade que nos é comum. Acreditamos assim que estamos acima da cultura, como se vivêssemos fora do tempo, e experimentamos uma espiritualidade fechada para os desafios seculares. Nesse arremedo de santidade, equiparamo-nos a um ídolo (fora do tempo, da cultura, da humanidade), tornando-nos soberbos como deuses, além de ignorantes quanto a nosso próprio acolhimento inadvertido de influências culturais na mensagem evangélica.

 Venho testemunhando nos últimos tempos, com preocupação crescente, a adesão, por pessoas cristãs, a um tipo de conservadorismo cuja postura dominante é a desse afastamento murmurador e autoprotecionista. Com grande frequência, o conservador — ou seja, aquele que acalenta os valores cristãos remanescentes na cultura, lamenta a galopante descristianização do Ocidente e deseja o atraso ou a interrupção desse processo — se comporta desse modo opaco, recusando-se a compreender e assumir temporariamente o olhar do outro para melhor comunicar sua cosmovisão. Entendo que um não-convertido se sinta assim, pois só o cristão verdadeiro pode assumir sua missão de "estar no mundo sem ser do mundo", ou seja, comprometer-se com o bem ao mesmo tempo em que se guarda do mal (Tg 1.27). Mas, enquanto o esquerdista inventa uma moralidade própria para sentir que age em nome do amor (e promove destruição, de modo consciente ou inadvertido), muitos conservadores se refugiam na memória de tempos mais morais e se entrincheiram ali, como se o máximo a fazer fosse alvejar a bagunça do mundo com cusparadas.

 Que o leitor não se engane: eu sou conservadora. Mas aprendi na carne, com dores, que não posso reproduzir acriticamente um comportamento comum de meu meio. E um dos mais constantes é uma consequência do autoprotecionismo: a ira pecaminosa. O conservador cristão que coloca seu conservadorismo no lugar das ênfases bíblicas adota a ira como modo preferido de reação, ou seja, vive irado, por indignar-se com a malignidade do mundo. Mas essa certeza bíblica deveria suscitar em nós apenas isso? A indignação, isolada, é a resposta emocional de quem espera que o mundo naturalmente obedeça a Deus, sem nossa intervenção como anunciadores de Cristo. E quem não consegue aceitar a realidade do pecado se revela incapaz de se posicionar redentivamente, pois percebe o incrédulo como um alvo primordial de ira (humana!), não de pregação. Trata-se de um desvio monstruoso na cosmovisão que o localiza mais perto do farisaísmo que de Cristo. Afinal, se o pecado alheio só suscita surpresa e indignação, em vez de compaixão, provavelmente a santidade é superficial e exteriorizada, como a dos fariseus.

 Preciso explorar reações comuns a outros episódios, também recentes. No dia 28 de fevereiro deste ano, em São Paulo, por iniciativa do DA da Faculdade de Direito, foi realizado na Universidade Presbiteriana Mackenzie um debate entre o dr. Guilherme Schelb, jurista, e o deputado e militante LGBT Jean Wyllys. Jean Wyllys? O nome causou rebuliço. Dedos acusatórios se voltaram contra os líderes da instituição. Na tímida publicidade do evento, alguns chegaram a enxergar uma estratégia de “abafa”, como se um debate público em uma universidade de peso pudesse ser ocultado... enquanto outros foram qualificados como “heróis” por divulgarem o acontecimento. Os mais afoitos denunciaram um suposto processo de liberalização da Igreja Presbiteriana do Brasil... Isso diz muito sobre o estado da igreja cristã protestante entre nós, ainda regida sob o mandato inconfessado do não-vejo, não-ouço, não-falo.
Mas a questão merece ser examinada. Que dolo houve em receber em suas dependências um militante LGBT para um debate? Há anos o Mackenzie recebe personalidades não-cristãs para discutir temas das mais variadas áreas. O pecado de um homossexual seria tão grave ao ponto de impedi-lo de comparecer às instituições cristãs? Mais grave que o ateísmo ou que a idolatria? Pensar (e sentir) assim não é bíblico. Se a ideologia LGBT tem alcançado projeção em todo o mundo ocidental, estando grandemente em desacordo com o que a Bíblia nos ensina, não só podemos, mas devemos abordar o assunto em público. E uma universidade cristã é o ambiente ideal para isso, pois a cosmovisão bíblica, se bem desenvolvida, possibilita uma base sólida para examinar todos os temas em pauta na sociedade.

 O mesmo escândalo ocorreu entre antiesquerdistas confessos quando o Mackenzie convidou certos preletores para um debate no dia 13 de novembro. Marina Silva e Ariovaldo Ramos, entre outros, estiveram no campus de Campinas para o V Simpósio de Ética e Cidadania. O chanceler da instituição, rev. Davi Charles Gomes — em quem eu confio o suficiente para dizer com segurança que não é de esquerda —, fez o contraponto tanto de Ariovaldo quanto de Marina. Infelizmente, não estive lá para fornecer minhas impressões sobre debates e debatedores. Mas não pude deixar de ouvir mais uma vez as vozes dos contrariados que, diante da notícia, de longe, teceram seus prognósticos sombrios sobre a instituição e a denominação.

 De que lugar exato bradam os desgostosos? Muitos não têm uma cosmovisão bíblica adequadamente formada; neles, é instintiva uma aversão ao contato com descrentes, por purismo farisaico ou medo do confronto. Outros não entendem que universidade não é igreja; em uma igreja, pressupõe-se que o convidado para falar sempre esteja em consonância com os conteúdos da fé cristã, pois, sendo ecclesia (de onde se origina o termo) a reunião dos remidos por Cristo, o pregador se expressa do púlpito com autoridade espiritual. Já a universidade, mesmo confessional, deve abarcar todos os lados das questões públicas. E isso pressupõe ouvir até mesmo o pior inimigo da fé cristã, como o oponente declarado Richard Dawkins, convidado por muitas universidades confessionais americanas para debater com cientistas cristãos. Se você não é contra a presença de Dawkins em debates nas universidades cristãs americanas, não pode ser contra a presença de militantes gays ou de esquerda no Mackenzie. Pelo contrário: nesses casos, a maturidade cristã consiste em compreender que o contraditório está por aí, nas ruas, e trazê-lo para nosso meio, com cristãos aptos para enfrentar seus desafios, não passa de nossa obrigação — por amor a quem se deixa seduzir pelos encantos do pensamento apóstata.

 “Mas Norma”, imagino a objeção do leitor, “a esquerda quer ajudar a implantar leis no Brasil que impeçam a liberdade cristã de expressão. É um contrassenso receber LGBTs e esquerdistas para falar”. Seria um contrassenso, sim, caso não devêssemos obedecer a Jesus. Por acaso Jesus diz que devemos pagar aos outros na mesma moeda? Não; pelo contrário, ele afirma: “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles” (Mt 7.12). Além de trazer à baila pontos controversos da atualidade — algo que jamais deveríamos estranhar —, a universidade deu a essas pessoas um excelente exemplo de comportamento cristão. Algo que poderá lhes ser lembrado da próxima vez que erguerem a voz para defender os projetos de lei autoritários que estão em voga ou que proibirem os cristãos ortodoxos de falar nas arenas públicas.

 O problema não é pequeno. A quem suspeita de que estou apenas preocupada com a reputação de instituições e líderes presbiterianos, devo lembrar que urge, mais que nunca, colocar sobre a mesa um dado inequivocamente identitário do discipulado de Jesus. Se agirmos conforme o mundo, seremos pisados. Se devolvermos o desprezo com que somos tratados, qual será nossa utilidade nesta cultura? Nossa época é de um proselitismo arrogante nos mais variados setores, em geral travestido de neutralidade. A palavra "tolerância" nunca foi usada tão seletivamente: infinita para materialistas e relativistas, zero para religiosos e conservadores. Quando contam com algum poder coercivo, representantes desses setores não hesitam em usá-lo. Enquanto o Mackenzie sempre convidou cientistas ateus para debater com cientistas cristãos em eventos sobre darwinismo, a Unicamp cancelou de véspera², em outubro deste ano, o I Fórum de Filosofia e Ciência das Origens, do qual participariam evolucionistas e criacionistas. Pressão estudantil? Não: pressão indignada dos próprios professores da universidade, que não queriam a presença de criacionistas em seu espaço sacrossanto. Um deles chegou a vociferar: "Que façam isso numa igreja".

 Vamos responder na mesma moeda de ira ou continuar dando e aprovando exemplos de amor cristão? A escolha é sua — mas, antes de falar ou agir, tenha a certeza de conformar-se ao padrão bíblico.

Norma Braga Venâncio

Doutora em literatura francesa pela UFRJ e mestranda em teologia filosófica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. Desde 2005, escreve em seu blog (www.normabraga.blogspot.com) sobre cosmovisão cristã, teologia, arte e política. É casada com André Venâncio e reside atualmente em Natal.

domingo, 3 de maio de 2015

Tentando Resgatar Maria... a Serva do Senhor, mas do jeito certo!


Tentando Resgatar Maria... a Serva do Senhor, mas do jeito certo!

  Há tempos não lia um texto tão sensato sobre a realidade acerca de Maria, mãe de Jesus. Não posso deixar de compartilhar com vocês, nesse que é o mês que os batistas dedicam à família, o comércio dedica às mães e os católicos à Maria.

  Texto produzido pelo Pr Barbosa Neto, um ex-padre , com bastante conhecimento e bom senso.

Fernando Marin



Tentando Resgatar Maria... a Serva do Senhor, mas do jeito certo!


 Pr Barbosa Neto


 Geralmente, a tradição católica romana tem separado maio, como o “Mês de Maria”. A Bendita Virgem, Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, é a mais famosa de todas as mulheres da Bíblia – não tenhamos a menor sombra de dúvidas sobre isso. Para nós, cristãos evangélicos, ela é a mais famosa de todas as mulheres do mundo através da História.

 Seu privilégio é único, singular, incomparável. Ela foi nada menos que o vaso escolhido pelo Senhor Deus para realizar o grande milagre da encarnação do Verbo Eterno, que estava com Deus desde o princípio e era Deus (João 1.1.14). Além de não haver precedente, a encarnação do Filho Unigênito de Deus não se repete no transcurso das épocas ou na eternidade. “E o Verbo se fez carne”, de uma vez por todas e para sempre.

 É certo que, no maravilhoso cenário da história redentora, a atenção se concentra na pessoa do Cristo de Deus. Maria, porém, tem ali também um lugar de proeminência na história da salvação. Não desejamos passar por cima de sua pessoa nem permitir que sejam somente outros que lhe rendam tributo de admiração e respeito, se aproveitando do seu maravilhoso exemplo de submissão, obediência e profunda piedade.

 Poderíamos dizer, sem medo de errar, que Maria é patrimônio de todos nós que professamos ser cristãos, sejamos católicos romanos ou cristãos evangélicos. Se existe uma espécie de monopólio mariano é porque temos permitido isso por razões teológicas e, quem sabe, pelo temor de cair nos excessos que outros têm caído por sua devoção antibíblica a Maria, a serva do Senhor.  Como resultado do que podemos chamar de “apatia mariana”, muitos católicos romanos  pensam que não gostamos de Maria ou, no pior dos casos, que somos seu inimigo! Ledo engano! Nada está mais longe da verdade, mas esta é a atitude que não poucos creram ter percebido ou que alguns, maldosamente, nos têm atribuído. Temos que corrigir essas impressões falsas e responder a toda acusação falsa no testemunho cristológico e mariano das Sagradas Escrituras, tendo uma atitude respeitosa para com a mãe de Jesus, o nosso Divino Salvador.

 A mais linda história que já foi contada e, sem dúvida alguma, a do nascimento de Jesus e dos fatos que envolveram Maria, a mãe do Salvador. Visto como Deus a escolheu para ser a mãe de Jesus, temos a obrigação cristã de estimá-la, honrando-a como o padrão da maternidade. Ela não foi uma mulher qualquer. Maria foi uma mulher pura, santa, piedosa, virtuosa e humilde, até o sacrifício, ela foi a Mãe do Salvador, defendamos isso.  Ela conhecia bem as Sagradas Escrituras do Velho Testamento, daí a sua fé e a beleza do seu caráter de esposa e mãe.

 Isto posto, voltemo-nos para uma passagem do Evangelho de São Lucas (1.26-56) para nos encontrarmos de novo com a bendita Virgem, a autêntica Maria de Nazaré revelada pelo Espírito Santo através de seu servo, o médico, historiador e evangelista Lucas. Se ela, como discípula, imitou a Cristo, seu Filho especial, seu próprio Criador e Deus sobre si mesma, nós, como discípulos de Jesus, devemos fazer o mesmo.  Mas, para tal, torna-se imprescindível enxergar honestamente o que a Bíblia Sagrada afirma a seu respeito sobre os seus privilégios, as palavras que foram dirigidas a ela,  e o que ela afirma de si mesma.

 Maria teve o privilégio de se tornar a mãe de Jesus, daí porque sua prima Isabel, cheia do Espírito Santo, exclamou alegremente ao vê-la entrar em sua casa: “Bendito és tu ENTRE as mulheres, e bendito o FRUTO do teu ventre” (Lucas 1.42). Observem que Isabel, não chamou Maria de “bendita ACIMA de todas as mulheres”, porém apenas “bendita ENTRE as mulheres”. Porque “bendito” ACIMA de todos os homens existe apenas um, “o FRUTO” do ventre de Maria, ou seja, Jesus Cristo, Homem! Os dogmas é que modificaram o que nos diz as Sagradas Escrituras, e eis aí a nossa dificuldade em aceitar o que os religiosos católicos romanos passaram a proclamar sobre Maria, que não tem nenhum apoio nas Sagradas Escrituras.

 Meu espaço é diminuto para tratar de assunto tão sério, com riqueza de detalhes. Mas mesmo assim, deixem-me trazer o testemunho de um dos sacerdotes católico romano mais sério que conhecemos: Pe. José Fernandes de Oliveira, SCJ, o Padre Zezinho, conhecidíssimo também entre nós. Quem já não cantou algumas de suas canções, para seu deleite espiritual como “Um certo Galileu”, “Amar como Jesus amou”, “Estou pensando em Deus” e tantas outras? Ele escreveu algo muito sério sobre Maria em seu livro: “Maria do Jeito Certo – reflexões e entrevistas”, sobre os limites de Maria, obra esta que surpreendeu e chocou a muitos católicos romanos.

 Vejam o que ele diz: “Não sei tudo o que deveria saber sobre Deus e sobre Maria, mas sei o suficiente para lembrar aos irmãos católicos que exageram o papel da mãe de Jesus, que o Filho dela ainda é o Senhor e a ele é que tudo foi dado pelo Pai (Mateus 11.27; João 3.35)”, pág. 14; “Sobre Maria há muito que dizer, mas pode-se dizer muito e de menos, muito e demais, pouco e de menos, pouco e demais. Depende do tamanho da heresia ou da indiferença. É tão errado elevar Maria  demais quanto diminui-la!”; “Ela tem o seu justo lugar na história da salvação e deveria tê-lo também nas Igrejas e em seus grupos. Não é um lugar de deusa, com também  não é o de uma mulher qualquer. Quem deu à luz alguém como Jesus não é um acidente histórico. Jesus não nasceu por acidente. Deus o queria aqui como filho bem amado e escolheu Maria para ser a mãe. E ela soube cumprir muito bem o seu papel”  pág. 17; “Há irmãos que colocam Maria num pedestal onde nem ela gostaria de estar. Exageram o seu papel no Reino anunciado por Jesus. Há outros que a diminuem,. Tem até medo de elogiá-la. Entre os evangélicos, há os que a aceitam com timidez e moderação e os que são capazes de pregar sobre Judith, Ester, Suzana, Rebeca, Eva, Agar, Abigail e Noemi, mas passam anos sem falar da mãe de Jesus. E, quando falam, é para diminuí-la e criticar os exageros dos católicos. Mas, verdade seja dita, há outros que falam de maneira maravilhosa sobre a Mãe do Cristo. Seria uma calúnia abominável dizer que os evangélicos não louvam nem amam Maria. Depende da Igreja e do pregador. E eles sabem disso. E não são poucos os que reagem nas suas igrejas quando um deles a deprecia ou diminui”, pág. 22; “Somos milhões de poços de contradições. Proclamamos nossa fé no Cristo e admiramos Pedro, Paulo, Tiago, João, Mateus e outros; citamos seus escritos e seus feitos; entendemo-nos maravilhosamente bem quando se trata dos apóstolos, mas brigamos por causa da mãe de Jesus. Aí, há os que a superexaltam e os que a diminuem”, pág. 23).

 Teríamos muito mais a dizer. Maria não é uma mulher qualquer, ela é a mãe do Salvador, não nos esqueçamos disso jamais! Mulher crente e devota, humilde e obediente, submissa à vontade divina, mãe e esposa exemplar. Mas não uma deusa como muitos a colocam num pedestal sem se aperceber disso. Maria ensina-nos, em palavra e ação, o que significa ser fiel a Deus, custe o que custar. Não procura atrair a atenção para a sua pessoa! Dirige a atenção para Deus, pelo que Ele é e pelo que Ele tem feito e pelo que fará a favor dos que o temem.

 Esta é a Maria, a serva do Senhor, revelada pelas Sagradas Escrituras e não pelos dogmas, que resgatamos. Ela merece o nosso profundo respeito e a nossa sincera admiração! Seu exemplo de fé, obediência e devoção é digno de ser imitado, especialmente no que diz respeito à fé que, para sua salvação, ela depositou somente no Senhor! Ela disse: “O meu espírito de alegrou em Deus, meu Salvador” (1.47). Esta é a Maria que amamos e queremos resgatar o seu justo lugar, mas como “Maria do Jeito Certo”, segundo as Sagradas Escrituras.  


     Pr. José Barbosa de Sena Neto, pastor batista, exerceu o sacerdócio católico romano por 22 anos consecutivos, como padre-frade capuchinho, no interior do Estado do Ceará. Professor da língua portuguesa, redação, didática, história, sociologia e filosofia, fundamentos da Educação, lecionou por muitos anos em colégio diocesano, chegando a coordenador pedagógico e diretor geral do mesmo colégio, lecionou por vários anos como professor convidado em diversos seminários teológicos Introdução ao Novo Testamento, Literatura do Novo Testamento, Teologia Bíblica do Novo Testamento, Seitas e Heresias e Sociologia. É membro titular da Academia Evangélica de Letras do Brasil (AELB), ocupando a cadeira nº 18, patronímica de Antônio Almeida, autor do Livro “Liberto do Catolicismo Romano” já em quarta edição. Crente e salvo por Jesus para sempre, residente em Fortaleza-CE.